Amor Amigo em Tempos que não Mudam.

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Amor Amigo em Tempos que não Mudam.

Mensagem por vini em Sex Abr 29, 2016 6:19 pm

Amor Amigo
Começo de noite. Aurélio caminha em direção a sua casa e olha, admirado, os enfeites natalinos que tomam conta da rua. No seu olhar atento, ele busca não um sentindo: ele conhece o porquê de tudo aquilo; na sua expressão ele tenta enxergar, na verdade, a tradução de toda aquela festividade, que ano após ano renasce, de fato viva e existente nas ações mais simples. Ele anseia junto a um suspiro penoso e lento, uma transição real: de vida, não apenas horas, dias. Uma despedida orgânica, muito mais que mental. Se o ano está por findar, que ele leve consigo todos os decrépitos que insistem em permanecer junto a nós. Parado, ele pergunta:
- É possível?
Cabisbaixo, visivelmente em outro planeta, Aurélio pega a chave e entra em sua casa. Após um rápido banho, já deitado em um sofá preto desbotado, assiste a um filme qualquer na TV. No intervalo, inúmeras propagandas convidam o telespectador a comemorar o Natal com ofertas tentadoras de roupas, celulares, eletrodomésticos. Indiferente, ele vira o rosto e adormece rapidamente.
Quando acorda, Aurélio fica desapontado por ter deixado a TV ligada. Com uma expressão atordoada, típica sua ao levantar, ele se prepara rapidamente para o trabalho. Sua rapidez ao fazer o café e também ao tomá-lo revela muito de suas facetas, a principal dela é ter um gás acima do normal com o raiar do dia, que vai se dissipando numa escala mais rápida ainda conforme as horas passam.
No caminho para pegar o ônibus, ele encontra uma antiga amiga chamada Verônica guardando alguns papeis em sua bolsa. Constrangido, Aurélio finge que não a vê e apressa o passo, mas ela sorri ao perceber o amigo e decide abordá-lo.
Verônica:
-Aurelio! Me espera.
Aurélio para e abre um sorriso largo, que mesmo verdadeiro, disfarça uma mágoa antiga da sua melhor amiga de infância e adolescência, como uma revanchezinha por estares distantes, ao mesmo tempo em que tenta despistar qualquer sinal de desconforto por tê-la ignorado propositalmente. Só que a surpresa de vê-la foi real.
Eles se abraçam.
Verônica:
- Ai amigo, que saudade. Muito bom te ver.
Aurélio:
- Nem acreditei quando ouvi tua voz. Tá fazendo o quê por aqui? Tá tudo bem com a tia Julia?
Verônica:
- Mamãe tá ótima. Na verdade eu to me mudando, então vim passar uns dias na casa dela. Mas só até eu conseguir alugar um apê bacana, do jeito que eu quero. Tô procurando alguns aqui por perto. Quero ficar mais próxima, sabe... Eu me distanciei muito, coisa que na época que a gente estudava eu jurava que não faria. E você, o que anda fazendo? Ainda ta no jornal?
Aurélio:
- Tô, mas eu ando meio desmotivado. Eu pensei uma coisa e acabou que lá é outra. Os donos interferem muito nas matérias, às vezes a gente fica até com receio de escrever sobre um tema mais polêmico. Eu to muito deslocado, com medo... Já pensei em tanta coisa, criar um blog, mas volta e meia um jornalista independente é morto. Não posso me arriscar tanto. Apesar de não parecer, eu tenho muito amor pela minha vidinha.
Verônica:
-Tá difícil pra todo mundo, Aurélio. Eu mesma to focada agora em concurso público. E a concorrência é grande, cê sabe! Cansei de advogar, cansei mesmo.
Aurélio:
- Sério? Mas por quê?
Verônica:
-É difícil fazer esse trabalho num País como o nosso. Justiça e Brasil não combinam... E só tem piorado com o passar do tempo. Na realidade selecionam quem vai ser punido e quem não vai. E esses Jornalistas que você falou, que denunciam essa roubalheira toda, não tem proteção nenhuma do estado. É muito revoltante!
Aurelío:
- Você ta indo visitar algum condomínio?
Verônica fica surpresa com a pergunta. Pensa rapidamente, mas decide ser franca.
Verônica:
-Pra falar a verdade, não. É o que eu deveria fazer, só que...
Aurélio:
- Eu te acompanho, vamos. Eu conheço um corretor de imóveis, o nome dele é Gabriel; Quem sabe você não se anima e compra um ao invés de alugar.
Verônica fica visivelmente desconfortável e sem coragem de recusar o convite.
Aurélio:
-Você não precisa me olhar com essa cara, Vê. Eu sei de tudo. Mas não te preocupa que ninguém me contou. Eu te conheço. Não é a 1° vez que você passa dias na casa da sua mãe. A diferença é que dessa vez você ta demorando mais que o normal, então... você ta separada. E dessa vez, é sério. Não tem volta. Quantas vezes eu te vi da janela, saindo com a sua mãe, sei lá vindo da padaria, do supermercado... vc nunca foi me ver, nem falou comigo, me cumprimentou na rua. Eu não entendo, essa não era a Vê que eu achava que conhecia... Que mudou se afastou só porque casou.

Verônica:
- Aurélio eu...
Aurélio:
-Eu to te dizendo essas coisas... É mágoa sim, não vou fingir que não. Mas também é pra te mostrar que em nenhum momento eu deixei de me preocupar com você e com a nossa amizade. (Pausa) Quando eu vi que ela já não existia como antes foi muito triste pra mim... E ai, de repente, você fala comigo e a gente conversa como se nada tivesse acontecido... Eu quis te ignorar, mas eu não sou assim, não consigo. Eu ainda te amo e por esse amor eu quero te impedir de fazer essa besteira que você ta querendo... Não vai atrás dele, não importa o que ele te fez ou o que você fez a ele. Não vai. Por favor! Eu não vou suportar ver você se rastejando atrás de ninguém. E isso não é de agora.

CONTINUA...

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